‹ Blog do CRIA Uma situação, uma ferramenta

Controle financeiro pra social media freelancer: como saber quanto sobra de verdade

Entrou dinheiro e você não sabe se sobrou? Veja como separar as contas, tirar pró-labore fixo e calcular quanto cada cliente realmente deixa no fim do mês.

A situação

Dia 5. Você abre o aplicativo do banco e o saldo está bom. Melhor que mês passado.

Aí você começa a lembrar. Tem R$ 3.000 ali que é verba de anúncio de um cliente, que você vai gastar no gerenciador até dia 20. Tem o pagamento de outro que ainda não chegou. Tem a fatura do cartão que fecha semana que vem e onde entraram, juntos, o banco de imagens, a assinatura de edição, o mercado, a farmácia e o presente de aniversário da sua irmã.

Você tenta descobrir quanto foi seu de verdade. Rola o extrato para cima. Desiste no meio.

E fica com a pergunta que não sai: eu tive um mês bom ou eu só recebi bastante?

Duas semanas depois o dinheiro sumiu, você não sabe onde, e a sensação é de que trabalhou muito e não sobrou. Talvez tenha sobrado. Só que não dá para saber, e não saber é o problema.

Por que o dinheiro some sem explicação

A conta é uma só, então a leitura é impossível. Quando salário do trabalho, pagamento de cliente, verba de tráfego, mercado e Netflix passam pelo mesmo extrato, nenhum número quer dizer coisa alguma. Saldo alto pode ser dívida com cliente. Saldo baixo pode ser mês ótimo com fatura fechando.

Verba de mídia parece receita. É o erro mais caro dessa lista. R$ 3.000 de anúncio que entram na sua conta são dinheiro do cliente de passagem, mas seu cérebro vê saldo. Você se sente mais rico do que é, gasta em cima disso, e no dia 20 o dinheiro do anúncio precisa sair.

Você tira dinheiro conforme entra. Sem pró-labore definido, o padrão de gasto acompanha o mês bom. Aí vem janeiro, o cliente sazonal pausa, e o padrão continua no mesmo lugar.

Imposto e mês fraco não têm lugar reservado. Os dois são certeza, não risco. Todo freelancer vai pagar imposto e todo freelancer vai ter um mês ruim. Quando não existe reserva, esses dois eventos previsíveis viram emergência.

Você não sabe quanto cada cliente deixa. Sem isso, o reajuste vira sensação, o corte vira medo, e você segura por anos o cliente que come a sua semana.

Como organizar, em 6 passos

1. Separe a conta do trabalho da conta pessoal

Esse passo sozinho resolve metade do problema, e é de graça na maioria dos bancos digitais.

Uma conta recebe cliente e paga o que é do trabalho: software, banco de imagens, contador, internet, equipamento. A outra é a sua vida.

A regra que faz o sistema funcionar: você nunca compra nada pessoal pela conta do trabalho, mesmo que seja mais prático. Nem o café. Quando a fronteira fura uma vez, ela fura sempre.

Se você usa cartão de crédito, o ideal é ter um cartão só do trabalho. Se não der, marque as compras de trabalho na hora, no aplicativo, porque reconstruir isso na fatura é a tarefa que ninguém faz.

2. Tire verba de mídia do seu caminho

O melhor cenário é o mais simples: o cartão de crédito cadastrado no gerenciador é do cliente, a cobrança cai na fatura dele, você só administra a campanha. O dinheiro nunca encosta em você.

Isso protege os dois lados. Você não fica com dinheiro alheio na conta e ele vê exatamente o que a plataforma cobrou.

Quando não dá para evitar, e às vezes não dá, faça quatro coisas:

  • Registre a entrada como repasse, nunca como receita. Se você anota o mês numa planilha, ela precisa de uma coluna separada só para isso.
  • Deixe o valor numa conta que você não usa, ou pelo menos numa reserva marcada.
  • Guarde o comprovante de cada pagamento feito à plataforma, um por um.
  • Mande o extrato da verba junto do relatório mensal, mesmo que ninguém peça.

Esse último item parece exagero até o dia em que o cliente pergunta para onde foram os R$ 3.000. Aí ele vale o contrato inteiro.

Vale lembrar que gestão de tráfego é serviço à parte, com cobrança à parte, e isso precisa estar escrito na proposta desde o começo. O raciocínio completo está no método para definir quanto cobrar.

3. Defina um pró-labore fixo

Escolha um valor que você tira da conta do trabalho para a conta pessoal, todo mês, no mesmo dia. Sempre o mesmo valor.

Como chegar nele: olhe seus últimos seis meses de faturamento, pegue o mês mais fraco e tire dele o que é custo do trabalho. O que sobra é uma base honesta. Comece por aí, mesmo que pareça pouco.

O que isso muda, na prática: o mês bom deixa de definir o seu padrão de vida. O excedente fica na conta do trabalho e vira reserva, imposto, equipamento novo, e não uma compra que você não vai lembrar em março.

Combine com uma regra de aumento: você só sobe o pró-labore depois de três meses seguidos acima do valor atual. Isso evita subir por causa de um mês fora da curva.

4. Separe imposto e mês fraco no dia da entrada

Todo dinheiro que entra se divide antes de virar saldo disponível. No mesmo dia, sem esperar.

Um jeito de organizar, com três destinos:

DestinoPara que serve
ImpostoO percentual que seu contador indicar, guardado fora da conta de movimento
Reserva de meses fracosDezembro, janeiro, cliente que pausa, cliente que sai
OperaçãoSoftwares, equipamento, curso, o que mantém o trabalho de pé

O que sobra depois disso é o que existe de fato.

Sobre a reserva de meses fracos: o alvo saudável é conseguir cobrir de três a seis meses do seu custo fixo, incluindo o pró-labore. Isso demora a ser construído e não tem atalho, mas é o que permite recusar cliente ruim, e recusar cliente ruim é o que muda a vida de um freelancer.

5. Anote uma vez por semana, não uma vez por ano

Marque quinze minutos na sexta. Sempre a mesma hora.

Nesses quinze minutos você faz três coisas: registra o que entrou, registra o que saiu do trabalho e confere quem está devendo. Só isso.

Planilha simples resolve, com data, cliente, entrada, saída, categoria e uma coluna dizendo se é repasse. O que não resolve é a tentativa de reconstruir seis meses num domingo de dezembro, com o contador cobrando e você tentando lembrar o que era aquele Pix de R$ 340 em julho.

Aproveite a sexta para conferir também o vencido. Cobrança feita no terceiro dia de atraso é uma mensagem simpática; cobrança feita no trigésimo é uma conversa constrangedora.

6. Faça a conta de quanto sobra por cliente

Aqui está o número que muda decisão. Ele tem três linhas.

O que ele paga. O valor do contrato, sem a verba de mídia.

O que ele custa direto. Impulsionamento pago por você, freelancer de edição, deslocamento até a loja, banco de imagens usado só nele, estacionamento nos dias de gravação.

O que ele consome de você. As horas do mês (planejamento, produção, atendimento, reunião, ajuste, relatório) multiplicadas pelo seu custo por hora.

Um exemplo, só para mostrar a mecânica: cliente paga R$ 2.000, tem R$ 200 de custo direto e consome 17 horas. Se o seu custo por hora é R$ 90, são R$ 1.530 de custo de tempo. Sobram R$ 270. Esse número é o exemplo, não a sua realidade: rode com os seus valores.

O que essa conta costuma revelar é desconfortável e útil. O cliente grande que todo mundo elogia pode ser o que menos deixa, porque manda áudio de dez minutos às 21h, remarca reunião duas vezes e pede três rodadas de ajuste. E o cliente pequeno e silencioso, que você quase esqueceu, pode ser o mais rentável da carteira.

Com esse número na mão, três conversas ficam fáceis: reajustar com argumento, reduzir escopo em vez de dar desconto e encerrar um contrato sem culpa.

Fechamento

Comece pelo passo que leva dez minutos: abra uma segunda conta e mande o link dela para os clientes que pagam por Pix.

No mês que vem você vai ter, pela primeira vez, um extrato que fala só do seu trabalho. É a partir dele que todas as outras contas ficam possíveis.

Perguntas frequentes

Preciso abrir CNPJ para trabalhar como social media?

Não é obrigatório para começar, mas na maioria dos casos vale a pena assim que o faturamento estabiliza, porque muitas empresas só contratam com nota fiscal e a carga de imposto costuma ficar menor. Converse com um contador antes de decidir: a resposta depende do seu volume, do seu estado e do tipo de cliente que você atende.

Posso usar minha conta pessoal para receber de cliente?

Funciona no começo, mas cobra um preço alto: você deixa de saber quanto o trabalho rende. Uma conta separada, mesmo que seja uma segunda conta digital gratuita em seu nome, já resolve. O critério não é jurídico, é de leitura: dinheiro do trabalho e dinheiro da vida precisam ter extratos diferentes.

O que fazer quando o cliente insiste em passar a verba de tráfego na minha conta?

Explique que a verba é dele e que o pagamento direto no cartão dele protege os dois lados. Se não houver jeito, registre a entrada como repasse e não como receita, guarde o comprovante de cada pagamento à plataforma e mande o extrato junto do relatório do mês. Verba que entra e sai não é faturamento seu.

Quanto devo guardar para imposto?

Depende do seu regime e do seu faturamento, então quem responde isso é o seu contador. O hábito que vale para todo mundo é separar o valor no mesmo dia em que o dinheiro entra, numa conta que você não usa no dia a dia. Imposto pago com dinheiro guardado é rotina; imposto pago com dinheiro que já foi gasto é dívida.

Como saber se um cliente está dando prejuízo?

Compare o que ele paga com o que ele consome de horas suas no mês, usando o seu custo por hora. Cliente que paga bem e consome o triplo do tempo pode render menos que o cliente pequeno que aprova tudo em dois dias. Sem esse cálculo, a decisão de reajustar ou encerrar vira sensação.

Saiba quanto cada cliente deixa

O Cria Caixa organiza entrada e saída por cliente, então reajuste e corte deixam de ser sensação e viram número. Custa R$ 24,90 por mês, na conta de gestor que é grátis.

Abrir minha conta grátis

Pra ler depois